TEXTURA VIVENCIAL COMPLEXA, CAÓTICA E FRAGMENTADA

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Imagem: Marx Ernst (1923) Castor and Pollution

Sou psicólogo, Sou poeta, Sou negro, Sou redencense por criação e recifense por adoção. Sou necessariamente marginal. Pois margeio a vida e suas minudências. Retiro da área periférica da vida minhas abluções de existir. Por isto escrevo, faço livro e crio obras nem sempre lidas, ou entendidas. Mas que fazem barulhos e incomodam algumas mentes ocidentalizadas, mediocremente institucionalizadas.

E isto faço pela necessidade de viver neste mundo cão. Contribuir com o não-existir-existindo em uma resiliência de dor para não enlouquecer pelas caladas coisas. Assim me dou, me sangro, me mato e, às vezes, como acontecia no mundo primitivo de meus ancestrais, arranco com minhas mãos os crânios de alguns hipócritas e me delicio em um banquete antropofágico nem sempre recomendável.

Escrever é minha vida, e escrevo porque sou teimoso. E é nesta teimosia xucra que me faço poeta. Se além ou aquém isto pouco me importa, escrever é minha religião. Religião porque me permite um (re)ligar diário com a minha insanidade humana sem me desligar de minha necessidade de viver. Redenção é uma babilônia de textos simples sobre uma textura complexa, caótica e fragmentada.

Mas, no requinte de sua perfeição, pelos traços de sua própria arquitetura, resistindo a força e a impessoalidade do concreto e o delinear curvo de seus caminhos serpenteando seus aconteceres, me anima a lutar e a vencer. Anima-me a desviar da glória dos medíocres – que vivem a vida com olhares altivos de soberba, sem se importarem com as dores dos outros, ou que há uma terra sob seus pés.

Que há homens (semelhantes em anseios e quereres) que choram por ajuda – e a buscar os corações simples e verdadeiros do homem do povo – que apesar de viverem com olhares baixos, não tem medo de aprofundarem em seus relacionamentos de homens e irmãos, e que apesar do traje roto, do desalinhamento sintaxe e verbal do vocabulário, se alargam a alma a ponto de sentir a dor do outro e de compartilhar um pouco (do quase nada) que tem.

MEU GRITO

Não posso ficar alheio ao silencio
que emudece o meu grito.

Em breve
abrirei as janelas de minha alma
e gritarei ao mundo
tudo o que ainda me intriga
e me dói.

Sendo ou não compreendido
gritarei
e o valor de minha voz
se sustentará
sobre a debilidade do mundo
e dos homens.

Gritarei e não me cansarei
de dizer o que penso.

E , mesmo que o mundo
se sustente em silencio
e medo tenaz,
o meu grito será ouvido
sem fazer qualquer concessões,
ou reservas de mediocridade.

Pois não posso ficar alheio
ao silencio que emudece
meu desobediente grito.

Sempre terei em meus lábios
um desobediente grito
a espalhar
aos quatro cantos do mundo
o meu entendimento de trono
e de nuvem.

Gritarei sem medo
e sem pudor
tudo o que intriga meu peito
e corrói a minh’alma
e destroça o meu velho
e cansado coração.

OXORONGA, Alufa-Licuta.

Imagem: Marx Ernst (1923) Castor and Pollution

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